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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

A APARÊNCIA DE PIEDADE DOS MINISTROS INCONVERSOS

“Ai daquele que tocar ou falar contra um ungido do Senhor!” Esta frase é usada com grande frequência como uma espécie de “certificado de imunidade diplomática”. Aqueles que a usam desejam ser intocáveis, não pretendendo prestar contas dos seus atos à frente de uma determinada igreja local. Existem inúmeros problemas teológicos com o uso dessa frase. Há a dificuldade envolvida nas pretensões messiânicas daqueles pretensos “ungidos do Senhor”. Há também a questão do ideal de isenção de qualquer prestação de contas, como se os pastores e líderes da igreja não devessem ser julgados. Não obstante, quero chamar a atenção para a ideia subjacente de que todo e qualquer pastor é um verdadeiro e genuíno pastor.
Infelizmente, a grande maioria das pessoas acredita (ainda que não declare isso explicitamente), que o fato de alguém ter um dia recebido a imposição das mãos do presbitério o torna um verdadeiro ministro do evangelho. O que pode ser visto em muitos casos, porém, é que muitos daqueles que foram investidos no sagrado ministério não são vocacionados para o mesmo. Piora quando percebemos que muitos sequer foram regenerados (sobre isso, ver o texto do Pr. Hernandes Dias Lopes, aqui).
O interessante é que tais homens, em muitas ocasiões possuem uma capacidade enorme de enganar, iludir e fascinar os membros de nossas igrejas. Através do seu discurso inflamado eles tratam de denegrir a imagem daqueles que verdadeiramente foram regenerados e vocacionados para o ministério. A artimanha envolve rotular os ministros de Cristo como homens imbuídos de muito conhecimento teológico, mas nenhum “fruto”; muito conhecimento teológico, mas nenhuma grande realização.
Quando olhamos para as Sagradas Escrituras vemos que era exatamente isso que os falsos apóstolos e obreiros fraudulentos que assolavam a igreja de Corinto faziam em relação ao apóstolo Paulo. Tais homens tratavam de descrendenciar o apóstolo diante dos coríntios com afirmações no sentido de que Paulo era fraco no falar, de presença débil e destituído de poder espiritual (2 Coríntios 10.10; 11.6; 12.11-13). Grande parte da segunda epístola canônica de Paulo aos coríntios é usada para por ele para defender o seu apostolado como sendo genuíno. Homens maus e perversos, ministros de Satanás estavam no meio daquela comunidade difamando o apóstolo ao mesmo tempo em que intentavam manipular e dominar a igreja.
Ao que tudo indica, eles estavam logrando êxito. 2 Coríntios 10.10 indica que a propaganda difamatória dos falsos obreiros havia sido incorporada ao ideário da igreja de Corinto: “As cartas, com efeito, dizem, são graves e fortes; mas a presença pessoal dele é fraca, e a palavra, desprezível”. Um sério agravante pode ser percebido quando recordamos que a igreja de Corinto fora fundada pelo próprio Paulo, como fruto da sua segunda viagem missionária (Atos 18.1-4):
Depois disto, deixando Paulo Atenas, partiu para Corinto. Lá, encontrou certo judeu chamado Áquila, natural do Ponto, recentemente chegado da Itália, com Priscila, sua mulher, em vista de ter Cláudio decretado que todos os judeus se retirassem de Roma. Paulo aproximou-se deles. E, posto que eram do mesmo ofício, passou a morar com eles e ali trabalhava, pois a profissão deles era fazer tendas. E todos os sábados discorria na sinagoga, persuadindo tanto judeus como gregos.
Então, aquela igreja conhecia muito bem o apóstolo Paulo. Paulo permaneceu em Corinto pelo período de um ano e seis meses, e durante esse período ele ensinou a Palavra de Deus aos membros daquela igreja (Atos 18.11). A igreja de Corinto ocupava um lugar tão especial no coração de Paulo, que ele chega a chamar os seus membros de “o selo do meu apostolado no Senhor” (1 Coríntios 9.2). Dessa forma, como foi possível que uma igreja que conhecia tão bem o apóstolo Paulo tenha se voltado contra ele dessa forma e se deixado levar pela difamação dos falsos obreiros que ali estavam?
A resposta pode ser aferida a partir de 2 Coríntios 11.13-15: “Porque os tais são falsos apóstolos, obreiros fraudulentos, transformando-se em apóstolos de Cristo. E não é de admirar, porque o próprio Satanás se transforma em anjo de luz. Não é muito, pois, que os seus próprios ministros se transformem em ministros de justiça; e o fim deles será conforme as suas obras. Os falsos ministros conseguem enganar as igrejas porque eles “se transformam”. O verbo utilizado por Paulo é metaschmati,zw, que pode ser mais bem traduzido como “disfarçar-se”. O texto não dá a ideia de uma transformação ocorrida no íntimo, no coração, pois esta pode ser realizada apenas pelo Espírito Santo de Deus. Não obstante, Paulo está falando de uma mudança ocorrida na superfície, no exterior, naquilo que é mais evidente aos olhos e, portanto, mais fácil de enganar, iludir e fascinar as pessoas. Os obreiros em questão eram homens que apelavam para os seus feitos, para aquilo que faziam e podia ser visto e que enchia os olhos, como por exemplo, uma oratória rebuscada. Os feitos desses homens eram tão “evidentes” e os de Paulo tão “pífios” que os coríntios se deixaram fascinar.
Jesus Cristo apresentou quadro semelhante no seu Sermão do Monte: “Acautelai-vos dos falsos profetas, que se vos apresentam disfarçados em ovelhas, mas por dentro são lobos roubadores”(Mateus 7.15). Literalmente, nosso Senhor está afirmando que os falsos profetas vestem uma “roupa de ovelha” (evndu,masin proba,twn) a fim de se passar por ovelha. John Stott afirma que “desta metáfora aprendemos que os pseudo-profetas são perigosos e mentirosos”.[1] O falso profeta é alguém que, até balir como ovelha ele bale, mas em seu coração habita um uivo de arrepiar os cabelos.
Em seguida, Jesus oferece a seguinte orientação: “Pelos seus frutos os conhecereis. Colhem-se, porventura, uvas dos espinheiros ou figos dos abrolhos? Assim, toda árvore boa produz bons frutos, porém a árvore má produz frutos maus. Não pode a árvore boa produzir frutos maus, nem a árvore má produzir frutos bons” (vv. 16-18). Interessantemente, os lobos gostam de apontar os supostos frutos dos seus ministérios. Eles enumeram as igrejas construídas, a melhoria na estrutura do local de culto, número de visitas, de profissões de fé e muitas outras coisas. Mas, será que são esses frutos que Jesus tem em mente? Certa vez ouvi uma conversa entre dois homens acerca de um determinado lobo. O primeiro deles, mais jovem, afirmou o seguinte: “Gosto do Pr. Fulano, pois ele investe, constrói muitas igrejas”. Ao que o homem mais velho, um sábio ancião respondeu: “É, meu irmão, mas o principal ele não ajuda a construir. Ele não constrói pessoas!” Tudo não passa de um disfarce, um meio de enganar uma igreja e prejudicar o trabalho de outras pessoas. Os frutos que o Senhor Jesus tem em mente estão vinculados ao ensino e doutrina de tais homens (Mateus 12.33-37), ao caráter e à conduta, bem como à influência exercida por tais mestres.
Por fim, em 2 Timóteo 3.1-5, o apóstolo Paulo elenca as “qualidades” dos homens ímpios que viveriam no período de tempo conhecido como “os últimos dias”. No versículo 5, Paulo afirma que os homens maus têm “forma de piedade, negando-lhe, entretanto, o poder”. Tais homens maus possuem um mero semblante, uma simples aparência externa de piedade (mo,rfwsin euvsebei,aj). William Hendriksen alerta para o terrível fato de que “eles têm se infiltrado na igreja (e não apenas na igreja)”.[2] John Stott faz um comentário interessante sobre essa afirmação paulina:
A mesma epidemia ainda grassava entre as pessoas que Paulo está descrevendo. Elas preservavam exteriormente uma “forma de piedade, negando-lhe, entretanto, o poder” (v. 5). Evidentemente elas participavam do culto da igreja. Cantavam os hinos, diziam o “amém” às orações e deitavam dinheiro na bandeja das ofertas. Tinham aparência e palavras notoriamente piedosas. Mas era forma sem poder, aparência externa sem realidade interna, religião sem moral, fé sem obras.[3]
“Essas pessoas não têm dinamite espiritual. Elas não têm amor a Deus, nem por sua revelação em Jesus Cristo, nem por seu povo. Então, uma vez que não são pessoas cheias do Espírito, não é de surpreender que não possuam poder”.[4]
Ao lermos algumas passagens neotestamentárias percebemos que alguns líderes da igreja eram homens dotados de uma piedade meramente externa, mas malignos em seu interior (2 Timóteo 2.17; 2 Pedro 2.1; 1 João 4.1,4; 2 João 7). Em Atos 20.29-30, Paulo alertou os pastores da igreja de Éfeso acerca do certo surgimento de homens com essa forma vazia de piedade: “Eu sei que, depois da minha partida, entre vós penetrarão lobos vorazes, que não pouparão o rebanho. E que, dentre vós mesmos, se levantarão homens falando coisas pervertidas para arrastar os discípulos atrás deles”. E é exatamente isso que falsos pastores com aparência de piedade têm feito. Eles têm prejudicado trabalhos, servido como espinhos na carne de ministros fiéis; eles têm penetrado sorrateiramente nas casas e conseguido cativar pessoas sobrecarregadas de pecado, conduzidas de várias paixões (2 Timóteo 3.6).
Só nos resta cumprir o que nos é ordenado pelo apóstolo: “Foge também destes” (2 Timóteo 3.5).

[1] John R. W. Stott. Contracultura Cristã: A Mensagem do Sermão do Monte. São Paulo: ABU, 1981. p. 92.
[2] William Hendriksen e Simon Kistemaker. New Testament Commentary: Thessalonians, the Pastorals, and Hebrews. Grand Rapids, MI: Baker Academic, 2007. p. 285.
[3] John Stott. A Mensagem de 2 Timóteo: Tu, Porém. São Paulo: ABU, 2005. p. 82.
[4] William Hendriksen e Simon Kistemaker. New Testament Commentary: Thessalonians, the Pastorals, and Hebrews. p. 286.

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